Tipos de memória




A memória possui a capacidade­ de adquirir, armazenar e recuperar diferentes tipos de informações. Ela é fundamental para a sobrevivência e a formação da identidade. O ser humano é forjado pelos momentos e experiências vivenciados ao longo da vida. A personalidade se caracteriza por seus gostos, opiniões e posicionamentos, baseados também nas experiências de vida.


Se eu pedir alguém que dê um exemplo de uma memória, talvez alguém se lembre de conhecimentos gerais adquiridos (como noções de regras gramaticais, fatos históricos), outras falarão a respeito de eventos pessoais ou sociais (como o dia do seu casamento ou sua impressão do jantar de ontem), enquanto outras citarão habilidades aprendidas (como saber tocar um instrumento ou ter aprendido a dirigir). Aliás, como você está mantendo em sua memória tudo o que leu até aqui, desde o início desse texto...?

As pessoas têm a ideia de memória como sendo uma coisa só. No entanto, estudos permitem distinguir diversos tipos e subtipos de memória, sendo alguns deles exemplificados no textão que eu escrevi ali em cima. Afinal, lembrar-se do dia do casamento não é o mesmo tipo de memória que lhe permite entender o conteúdo desta frase, assim como saber andar de bicicleta não tem relação com conhecimentos gerais de história ou geografia. Os acontecimentos pessoais são únicos (e pessoais, óbvio), acontecem em ocasião e lugares determinados, enquanto o conhecimento geral se caracteriza pela retenção de informações.


Há vários tipos de memória, ela não é uma entidade única, mas subdividida em vários tipos e subtipos. As memórias de pedalar uma bicicleta, saber quem descobriu o Brasil ou do dia do seu aniversário são memórias de longo prazo (MLP), que, por sua vez, podem ser divididas em memória declarativa (ou explícita) e memória não declarativa (ou implícita).


A memória declarativa consiste na recordação consciente de eventos pessoais ou de fatos culturais aprendidos ao longo da vida. O conhecimento pode ser expresso verbalmente, como discorrer a respeito do dia de sua formatura e relatar o que comeu no almoço. Ela é chamada declarativa porque as podemos declarar o conteúdo dessas lembranças aos outros.


Aprender a dirigir um carro é uma atividade adquirida de forma gradual, mediante prática e repetição. Não basta a leitura de um manual ou observação, é preciso o desempenho para que a habilidade se desenvolva. Com exceção da pré-ativação (priming), definida como a facilitação de respostas posteriores à exposição prévia a um estímulo, as memórias implícitas são aprendidas aos poucos, com repetições que seguem as mesmas regras. Elas compreendem diversos tipos, como a memória de procedimento, o condicionamento clássico (pareamento entre estímulos), o condicionamento operante (relação de contingência entre uma resposta e um estímulo reforçador), a habituação, a sensibilização. O aspecto distintivo em relação à memória declarativa é que, na memória implícita, prescinde-se de consciência, sendo a avaliação feita pelo desempenho. A memória de procedimento consiste na aquisição gra­dual de habilidades – sensoriais, motoras ou cognitivas. Pode-se dizer que, enquanto a memória declarativa consiste em conhecer “o que”, a memória de procedimento consiste em conhecer “como” (COHEN & SQUIRE, 1980).


Em suma, nós temos a forte tendência de considerar memória como sendo uma única coisa. Mas, vimos que podemos dividir, funcionalmente, a memória em memória de longo prazo (MLP) e memória de curto prazo (MCP). Além disso, podemos subdividir a MLP em memória declarativa (explícita) e não declarativa (implícita). Além disso, ainda podemos subdividir a memória declarativa em episódica e semântica.


A memória semântica é um tipo de memória compartilhada culturalmente. Não se sabe quando exatamente quando se adquiriu esse conhecimento, nem como, especificamente. Também não é preciso verificar a veracidade dessa informação para a “confecção” da memória. A memória episódica grava informações da nossa vida pessoal, como experiências que podemos evocar conscientemente e, estas sim, conseguimos responder às perguntas como?, onde? e por quê?. Já a memória semântica não possui informações pessoais, sendo apenas conhecimentos gerais, que todo mundo, numa mesma cultura, tem acesso.


Memória automática

Memórias episódicas demandam um grande esforço mental e atenção por parte do sujeito, pois se trata de um processo controlado. Entretanto, a maior parte da atividade cerebral é automática.


Os processos automáticos são iniciados a partir de um estímulo apropriado, seja ele consciente ou não, e, a partir daí, procede automaticamente, isto é, sem o controle do sujeito. Esse processo também não força as limitações do sistema (Schneider & Shiffrin, 1977), uma vez que os circuitos neurais já estão construídos e, por isso, demandam pouca energia, isto é, demandam pouco consumo de glicose.


As memórias implícitas envolvem processamento automático. Existe um conceito bem antigo que envolve esse tipo de memória: o hábito. Para o filósofo francês Henri Bergson (1859 - 1941), o hábito consiste no armazenamento de lembranças pela repetição de eventos que, gradualmente, vão construindo um traço fixo de memória (Bergson, 1999). Para William James (1990), o “hábito diminui a atenção consciente com a qual nossos atos são desempenhados” e “simplifica os movimentos exigidos para se alcançar um resultado desejado, tornando-os mais precisos e diminuindo a fadiga”.


Quando uma tarefa é praticada repetidas vezes, ela se torna automática. Para a psicóloga Flávia dos Santos, autora de Neuropsicologia Hoje (2015), “o processamento automático de tarefas é muito importante, pois libera o sistema de processo controlado, que é consciente, para executar tarefas mais complicadas e que exigem atenção”. A automatização de processos mentais também permite que duas - ou mais - tarefas sejam executadas simultaneamente. Portanto, como exemplo, é possível que uma pessoa caminhe pela rua conversando com outra que esteja ao lado.


No próximo capítulo você vai ver que qualquer tarefa que executemos é um processo extremamente complexo; o ato de caminhar exige a coordenação de grande parte do cérebro com as fibras musculares que estão espalhadas pelo corpo e o ato de conversar exige a coordenação de outra grande parte do cérebro e do acesso a informações da memória.


Memória operacional

Outro conceito bem antigo sobre os sistemas memória envolve a memória de longo prazo (MLP) e a memória de curto prazo (MCP), de acordo com o tempo e a capacidade de armazenamento. A MCP armazena conteúdo muito limitado, cerca de 4 itens e por poucos segundos (Cowan, 2001), enquanto a MLP é capaz de armazenar quantidade praticamente ilimitada de informações e por minutos, horas, meses ou anos!

A memória operacional pode ser entendida como a ligação entre a MLP e a MCP. Ela é entendida como a capacidade de manter e manipular informações por um breve período de tempo, simultaneamente (F. SANTOS, 2015). Essas informações são constituídas de sinais provenientes do ambiente externo e fontes já acumuladas e processadas armazenadas na MLP. Assim, é possível operar com diversas informações e, ao mesmo tempo, possibilitar o desempenho das funções cognitivas mais complexas, como a linguagem, o pensamento e o raciocínio.

71 visualizações

©2020 por Faculdade da Mente.

SMPW Trecho 3 Bloco B Loja 15 Edifício BanShop - Brasília/DF

CNPJ 24.701.671/0001-48

Telefone/WhatsApp +55 (61) 4141-9965

A data estimada para entrega dos produtos dependerá do produto escolhido