O caso que mudou a neurociência



Phineas Gage trabalhava como operário em uma obra para construção de estradas de ferro. Certo dia, num acidente com explosivos, teve seu cérebro perfurado por uma barra de metal. Apesar do grave acidente, sobreviveu sem muitas sequelas aparentes - exceto pelo seu olho esquerdo e uma cicatriz. Após o ocorrido, Phineas apresentou uma mudança comportamental acentuada, sendo objeto para estudos de caso muito conhecidos entre neurocientistas.


Em 13 de setembro de 1848, Gage era o encarregado de colocar a pólvora para dentro de um profundo buraco aberto na rocha. No momento em que ele pressionou a pólvora para o buraco, o atrito fez uma faísca, fazendo com que houvesse uma explosão. A explosão resultante projetou a barra que Gage estava utilizando, de 1 metro e meio de comprimento, contra seu crânio em alta velocidade. Esta barra entrou pela bochecha esquerda destruindo seu olho, atravessando, na sequência, a parte frontal do cérebro e saindo pelo topo do crânio, do lado direito, como mostrado na figura acima.


Gage surpreendentemente permaneceu consciente imediatamente depois do acidente. Sendo levado ao médico local, John Harlow, que o socorreu. Incrivelmente, ele estava falando e podia até caminhar. Perdeu muito sangue, mas depois de alguns problemas de infecção ele não só sobreviveu à lesão, como também se recuperou bem fisicamente.


Durante três semanas a ferida foi tratada pelos médicos. Em novembro, Gage já podia circular pela vila. Mas seu comportamento era diferente. Ele teria se transformado num homem de gênio ruim, grosseiro, desrespeitoso com os colegas e incapaz de aceitar conselhos; completamente diferente de como era antes do acidente. Ele não era mais capaz de fazer planos para o futuro e ele passou a agir sem pensar nas consequências. A sua transformação foi tão grande que todos diziam que "Gage deixou de ser ele mesmo".


Foi demitido de seu emprego por indisciplina e não conseguiu mais ter nenhum emprego fixo. Chegou a ser atração de circo e até mesmo tentar a vida no Chile, voltando posteriormente aos Estados Unidos. Morreu em 21 de maio de 1861.


O caso de Gage é considerado como uma das primeiras evidências científicas que indicavam que a lesão nos lóbulos frontais pode alterar a personalidade, emoções e a interação social. No entanto, o cérebro de Gage só foi estudado quatro anos após sua morte, quando o doutor Harlow descobriu que ele havia falecido e pediu autorização para a sua irmã para exumar o corpo e preservar o crânio.


Antes deste caso os lóbulos frontais eram considerados estruturas sem função e sem relação com o comportamento humano.


Embora Gage seja considerado o "caso índice de mudança de personalidade devido a danos no lobo frontal", a extensão incerta da sua lesão cerebral e a compreensão limitada de suas mudanças comportamentais o tornam "de interesse mais histórico do que neurológico". Assim, Macmillan escreve: "Vale a pena recordar a história de Phineas [principalmente] porque ilustra com que facilidade um pequeno estoque de fatos se transforma em mito popular e científico", a escassez de evidências tendo permitido "a adequação de quase qualquer teoria [desejada] ao pequeno número de fatos que temos". Uma preocupação semelhante foi expressa em 1877, quando o neurologista britânico David Ferrier (escrevendo para Henry Pickering Bowditch, de Harvard, na tentativa de "resolver definitivamente esse caso") reclamou que "Ao investigar relatórios sobre doenças e lesões do cérebro, fico constantemente impressionado com a inexatidão e a distorção a que estão sujeitos por homens que têm alguma teoria predileta para apoiar. Os fatos padecem de maneira assustadora..." Mais recentemente, o neurologista Oliver Sacks refere-se às "interpretações e más interpretações de [Gage] a partir de 1848 para o presente", e Jarrett discute o uso de Gage para promover "o mito, encontrado em centenas de livros de psicologia e neurociência, peças teatrais, filmes, poemas e esquetes do YouTube. A personalidade está localizada nos lobos frontais ... e uma vez danificados, a pessoa muda para sempre."


Bibliografia

  • Macmillan, M. The Phineas Gage Information page, School of Psychology, Deakin University, Victoria, Australia, including

  • Fleischman, J. (2002). Phineas Gage: A Gruesome but True Story About Brain Science. [S.l.: s.n.] ISBN 0-618-05252-6 (Aimed at middle-school students)

  • Macmillan, M. (2008). «Phineas Gage – Unravelling the myth The Psychologist (British Psychological Society), 21(9): 828–831»

  • Book review: Seamus Sweeney. «An odd kind of fame». nthposition.com.

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